sexta-feira

Poemas de Fernando Campos


Sala de Exibição do Estúdio
Kaiser de Cinema
em Ribeirão Preto
O poema e o filme

As baleias nadam todos os dias da semana.
Os gatos ainda estão pingados em cima do telhado.
Quando olho pra você -- será arte? --,
vejo tinta numa tela de cinema.
Seu rosto tem luz própria, peculiar espelho.
Se notarmos bem, há mais revelações numa gota de orvalho do que ousou nossa vã melancolia. 
As faixas do asfalto o dividem ao meio, projeções e caminhos.
Desarticular o arco exerce menos tensão sobre a flecha e pacifica a superfície do alvo.
Fatos memoráveis ficam apenas na memória.
Atenas não se fez num só dia.
Pense bem e veja fundo na alma do poema




Entrada da Sala
O poema e o filme II


Eram horas vespertinas
e o silêncio ainda persistia na alma do poema.
O projecionista, assaltado pela inquietude da cidade grande, ia e vinha com a bobina entre as mãos,
sem saber se o público compareceria
para a próxima sessão.
O mar, bem perto, continuava a refletir seus azuis
e as baleias musicais, como num enorme aquário,
tentavam a todo custo falar a língua dos humanos.
Os gatos, nos telhados, se transmutavam em gotículas de tinta
oferecendo sua pele de mudez e pergaminho
aos carnavalescos e ritmistas dos novos tempos.
A luz espelhada, indeferida por uma voz convencional,
sentia-se frustrada por frases, gruas e arpões, 
tentando libertar a língua
e mantê-la fora do poder instaurado
por portentosas bolhas intelectuais.
Eram ainda as horas vespertinas
e o silêncio insistia na alma do poema
 até que alguém pudesse falar ou gritar, 
até que o projecionista pudesse ousar qualquer gesto mais amplo,
qualquer reação,
até que uma voz feliniana, quem sabe,
viesse de outras eras, em forma de memória,
socorrer o poema
e descortinar o grande filme, como outrora.
Talvez assim se pudesse redimir Atenas
(a cidade sitiada) e reconstruí-la em outros moldes
para que possamos, enfim
vislumbrar, na alma, a face do poema.

  

segunda-feira

Rosa de Videira

Bento Gonçalves, RS

é dor devotada em desatino
dar-se de raiz à linha de frente
     soprar pétala para suavizar o vento sudoeste
     adoçar os sais para que a terra não se zangue

sacrífico e frágil destino
de entregar-se à peste
em prece ao senhor do sangue

na linda vinha
(mais bela ainda)
rosa é reverso de uva
e por isso é uva
é delírio
corte oblíquo de espinho

e não percebe-se:
na taça
bebe-se também a lágrima da uva pela generosa rosa
unidas na mesma dor
de adensar vinho

* As frágeis roseiras são plantadas perto das videiras, como bois de piranha. 
Quando as pragas atacam, elas adoecem primeiro, 
dando tempo para os viticultores salvarem as vinhas. 

sábado

Noite serenada




teu dia espreguiça
na lenta sombra do monte
e volta para ele mais cedo

êta minas danada
o que faz teu gosto mesmo
é a noite serenada

quarta-feira

Elegância


ateia fogo a jovem pele morena

ergue fogueira
risca céu e inferno

na ponta da língua sobre ameixados lábios
labareda inquieta de primeira fagulha

mas não trisca
chama e abandona
abafa esfumaça afoga
e vai embora
elegantemente



sexta-feira

Epifania

Imagem - Nasa
recito os versos que universas 
e sinto apenar-me neste teu ego intestino 
     buraco negro cosmo oco 
            desconexo sem eco 

desintegra-me esta tua palavra 
a visão que se me destina 
é flagelo diante de teu raio sideral 

tu 
     cujo tempo eterna agora 
     cujo lugar sou eu 
     onde todo verbo cabe e transborda 
     que tudo há 
     e
me exclui 

de teu sonho celeste me despejas 
com o frio desbeijo da vida
     que só vai   v a i      v   a    i 


   

quarta-feira

O rosto dela

"O rosto dela" - Paulo Vieira

parece gostar do toque leve dos dedos no peito
e a despeito do bom da palavra dita
o que fica é este olhar incógnito
          escombros
               corpo inóspito
que curva penumbros ombros

(fissura em conta-gotas
dor que não se esgota)

este prazer agiota
êxtase que escorcha
sob lenta tortura


  

domingo

Soberba solidão

Canela-de-Ema da Serra do Cipó (internet)




flor de brisa sobre pedra
selvagem beleza que ponteia o campo

solitária e marcante presença sua

(por que nos deram mundos opostos?)

gigantemente ela fica de pé
sonhando com terras lavradias
soprando versos pela vida
               que não a orbita

palavras tantas
             todas onde deveria estar você

e em desdenho e soberba
a serra blasfema sua imensidão
contra a flor lágrima


  

sábado

Pernas curtas

Timóteo. MG

casas de corpo ausente
calçadas sob pés dormentes
     passos ao passado

curva fechada em morro íngreme
pessoas e suas fachadas
     fechaduras

portas cortam outra parede
procuro por mim em tudo
     e não encontro

janelas entreabertas em rede
em sonho já sem dono
     na igreja atrás da grade

os olhares é que não se encontram

na cidade e suas ruas
ainda caminho de pernas curtas

  

domingo

Lágrima do mundo


(para o poeta Roberto Lima) 


o vendedor de ingenuidades 
cheira perfume e dedica flor 
pisca sorriso fácil 
ilude olhos apaixonadiços 

na sua teia ele dissimula 
renega o paraíso 
descolore sonhos 

o demônio fascina ao entristecer 
ao se oferecer 
poesia 
a mais bela lágrima do mundo 

sábado

Mortificações

para o poeta Bispo Filho
Contorcionista 3 - Paulo Vieira

conotou todas as palavras que tentaram traçar destinos
preferiu as da dor ácida 

     sem limite de crueza
          afeto 
               e fereza canina

cantou o outro lado do rio para o outro lado do mundo
abriu faces de outras faces 
      de outra coisa qualquer
           com a lente de aumento 
               do alhar que adolesce

o poeta lambe com prazer a ferida
- não qualquer martírio 
  só os que se movem dos lados para o centro
  para as mutilações de dentro e de fora
  como quem está sempre partindo(se)
  para onde sempre se volta