Mostrando postagens com marcador sala de Leitura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sala de Leitura. Mostrar todas as postagens

quinta-feira

Fornalha




a mata fumega
estala osso
o corpo curto-circuita
na pele o ar pesa grosso
secura de sangrar ventas

- respirar é esforço

  

domingo

Tu és dentro



teu sim
é tua arte
- palavra
  em si
  nua

é amor a permitir-se melhor
a insinuar-te
cravando intenso martelo
pingando em teu rosto meu suor
minha poesia

entrei forte
chicote de domador sobre o pelo
que arrepia

(só dista o que se adia)

- teu corpo belo
  bebo hoje num longo gole de uva tardia

tu  
tu és dentro
o meu tempo
a sentir saudade 
e amar em liberdade
amar em liberdade


  

Nefasto



                 esquecido na cinza tarde
            - fragor de chuva de granizo
em corpo de raio o medo escondo
                                                                                                     
o belo anjo veio fera
               brindou sangue
                                 hediondo

agora sei
a morte foi menina sim
brincou comigo de não saber quem era

ah
nem se zangue

já não estranha mais o silêncio seguido de estrondo

  

sábado

Tristeza



a falsídia
ácida taça
virá cativante
- tempestade de palavras
  que querem-se incontroláveis

fingidora orquídea
jogar-se-á granizo bruto na vidraça
arrancará medo, dos olhos a tristeza
     impor-se-á lágrima
                            nua
             raivosamente

mas, findos raio e trovão
         aquelas
         exatamente aquelas palavras
         boiarão na correnteza

     e o amor ficará assim
               protegidamente

  submergido em solidão

  

terça-feira

Lágrima de amor


quando a palavra amor cai da boca
                                               vazia
pesa ao ouvido
é abismamento, não poema

se chega seca falsa
                   belamente
                        fere abduz
versa vinho ácido, envenena

 mas, quando o amor
                             ama
 sai dos olhos poesia
                             é luz

    

quinta-feira

Amor avinagrado


há uma música surda no encanto do olhar
e a plumagem ilude em policromia

sim, pura beleza

mas é de corpos mutilados
de amores odiados
que chegam canções de sereia
- assassina poesia

em vinho avinagrado  
a fétida palavra vocifera
torpor

no feitiço das garras da fera 
não há amor

  

sábado

Tarde


não vieste 
  na tarde viraste paisagem 
  e o céu já cora 
  a lágrima que enviaste 

na lente rosé da taça de vinho 
   que o sol 
       também sozinho 
             logo se guarde 
                 a esperar amanhã 

  se é amor 
  não encarde 


segunda-feira

Fagulha

há de atear fogo
hastear labaredas na ponta dos dedos
jogar-se corpo solto
lambendo íntimos segredos

longa envergadura de drago
em jorro combusto
      beijo de único trago
                    última faísca

e num licoroso olhar
- página que sonha ser escrita com brandura
ler na pele minhas fagulhas


você me risca


  

quarta-feira

Desverso

Paulo Vieira - detalhe de uma pintura em acrílico s/ tela.
   
   gesto brega pequeno
este verbo em disfarce
                      é veneno
rebusca
mesmo o que não quer achar-se

- há coisa mais sem valor
                 que um poema
                         de amor?

  desconcertantemente
       desversa a poesia
  infiltra e se dissemina

e numa brusca rima
  desbota o sistema
                   repatria

                 o ditador

   

sábado

Na borda da taça

Nefando C - Fotografia de Wanderson Alves

viajo a desgarrar-me do tempo
                                   às cegas
nas corredeiras de um vale paradisíaco          
imerso nos mistérios de uma taça de pinot noir
                                                     a desdenhar
                                                             o futuro
deixo o que dos poros esvazio
(clausuro corpo dionisíaco)

e assim              
           quase sem ar
diante da inutilidade das palavras em ênfase
                                                           exalo-me
vou-me embora
entregar-me ao vento
num mortífero êxtase
                   satiríaco
 
afora       
     em ti
sem âncora
        sem cais
findo

    na borda da taça
teu beijo mais lindo
                estilhaça


- não te choro mais

  

domingo

Sonho de Champagne


deitaste o corpo delgado
em teus tons de rosa ao espectro solar
e brilhaste pele alva
a prender-me irremediavelmente o olhar

tu me acostumaste à arte felina
intensas cores e odores de caça
                                        de cio
aos aromas fluídos de laranja lima

quem me dera agora ter-te
pantera entre gardênias
a sonhar borbulhas de champagne

numa taça de vinho verde

  

segunda-feira

Ranhuras


em meu colo o mundo adolesce
e ganha garras
   eros feroz felino
e apetece afrodite
   beijo de incisivos e cravadas

ah
coisa assim a gente não esquece
(a pele que expunha
         delicadamente
      a ponta da unha)

leio teu convite
e em casa
      sozinho
      sussurro
      sim

suo na noite que enlouquece
neste tesão que carcome
e numa prece de amor
    urro
    teu nome


domingo

Leva-me


agora parto
    desatar-me
          desamar-te?

pés mãos
        pele de terra esturricada
este tempo não comparto
        contigo
                 antigo amor

no quarto
recheado de poesia verrugosa
lençol frio
         teu vazio reverbero

no momento exato
    antes que o tempo tudo aborte
    até mesmo a morte
meu corpo amortecido
       cai
e entrega tua parte

saudade

é tua arte

  

quinta-feira

Imarginar Minas

esta minas
que
       de ti
             ainda infinda persiste
- onde o mar não bete

que
      de mim
            ainda descrevo triste
 - sem que a dor a retrate

por ti
por ter-te
       oceânea estamina
meu centro
adentro


que aos montes escrevo 
em onda de sonho que mais tarde amanhece 
e na crueza de rocha dos dias que morrem mais cedo

ah!

se margens houvesse

  

segunda-feira

Poematomas - Peso de água

Cachoeira Grande, Serra do Cipó

o verbo voar levita?
evita ele a falta de ar?

o verso não agradara
      recorte involuntário de estranha crueldade
      beleza que certamente não conforta
porque não se conforma
- a poesia em sua materialidade

enchente iminente recitara
arrebatadora natureza de tempestade

mas é com leveza de rio
dureza de pedra
peso de água
que a palavra batera-lhe na cara

  

domingo

Labirinto

Labirinto, Ma Ferreira
Assombra assim
       complexa e bela
Assona teu aroma
     abstrato jardim
     absinto

Quanto mais conheço o rumo
mais perco o prumo 
entre veredas do que sinto.

De ouvido a olvido
me encontro em labirinto.

Adri Aleixo

Marcos Pizano

  

Hospedeiro errante

alojam-se corações viajantes
que adubam almas com vírus fungos bactérias
                                          tatuagem carne viva

estalagem a céu de buracos negros
carregado de cada um de nossos vazios

(também sou passageiro 
                           tangente
de pouquíssimas paradas
                    leve instância)

de não se pedir guarida 
                     indulgência
  a quem é de sempre ir           
- para quem só há substância na partida

da ausência
     curta distância
sonhos indigentes
na bagagem
gentes e seus cacos
- colados aos meus

hospeda-se e ejeta-se

(sempre um estranho
                 a distar-se)

  

sábado

Perdão da liberdade

Paulo Vieira, Inédito Um 013
perdão do ódio que nega-se amor
da lágrima pelo choro frágil
                                   absurdo

perdão da vida
             por achar que era sua
do tempo
             a não se remir

o perdão da ausência
               que suplicam sol e lua

que mesmo podendo ser fácil não se faz pedir
o perdão dito surdo
                - disse que deu?

o perdão que não pude dar
               porque não era meu


O arremate do Giz de Alfaiate

Para Seu Tonim, na provocação de Roberto Lima
o som preciso da afiada tesoura
     desejo de cós sem presilhas
     pele sem vincos pregas
sem dedais para alinhavar na bainha dos olhos
o que a lua prateia e o sol doura

a palavra corte - mesmo que cerzidamente escrita - nunca cicatriza

ainda há de ser a unha comprida e dura
marcar no tecido do tempo
suave giz a desenhar por onde a vida fere
     a suja mão italiana rouba
     a luxúria vaticana agoura

não há liberdade na mascara no molde
                   e por mais que isso revolte
                                                        sim

                       hoje o sonho está preso

   

quarta-feira

Tão triste


olha-me
ainda dobro as asas que me levam a ti
e melancólico eu vou até que me rende
de tão triste tristonho morrer

qual sonhei
donde trazes violinos eu voei
mais que do céu relampeou
mil vezes cair 
e não me viste 
nos olhos 
mentir

te pertenci
desde que me encantou
com seu jazz nosso jazz com jeito de blues

donde não parecia a nenhum de nós
que tudo acabaria em vão

nem mais um
nem mais a nossa bossa nova ouvir ao longe
dois pra lá dois pra cá de bem mais perto
teu rosto de novo

me feriste
de morte
amor

te pertenci
desde que me entoou
com esta voz e ao redor tudo mudo

donde não parecia a nenhum de nós
que tudo acabaria em vão

nem mais um
nem mais a nossa bossa nova ouvir de longe
e tremer nas pernas um tango leve
um samba canção

me feriste 
de morte
amor

e 
de 
tão triste
vou morrer
de 
amor