sexta-feira

O Lugar





céu lindíssimo
Júpiter faz que conversa com a Lua
e calo no frio silêncio da madrugada

reflito sobre uma vida de poucas posses
muitas convicções 
e nenhuma certeza

a não ser
a de que
esta vida que aqui está
também não é minha

não é quem sou
(o que sou de matéria escura luz estelar gás pó ao que sempre se retorna)

o quando do moto-contínuo

e muito menos o porquê

ela vem
            e vai
                        sem onde

.

domingo

Você pra mim


Vênus


o véspero tempero da tarde
traz arte ao seu olhar singelo

como se
     por um átimo
                tudo parasse para suspirar





Jasmim Azul
flor de luz que brota do sul
sensual jardim em cósmico ninho
     amorosamente
azul de jasmim

tarde assim convém com verde vinho
saborizando a vida
     aromosamente
você pra mim

sábado

Ato último

Recorte: Criação do Homem - Michelangelo

este silêncio
em teu não absoluto
eu devolvo

este mundo
que é teu tributo
           (não é para mim)
devolvo

esta vida
         (que levará lágrimas)
devolvo sim
minuto a minuto

A rua e a escola


Rua Mateus de Araújo Silva, Timóteo

foi na Mateus de Araújo Silva, 216

estreita entre duas curvas e dois morros íngremes

ilha no mundo dos montes
a levar vida cabisbaixa




Angelina Alves de Carvalho, primeira escola de Timóteo
mas, uma escola avizinhava
e
quando me vi
havia nascido aluno e filho das letras
cercado de ideias inquietantes
a levar vida que não se encaixa


não me emparedo
não me enquadro

e nem Timóteo está enquadrada na parede

.

sexta-feira

Saudade em Novembro

Serra do Cipó


entre massas polares e rios voadores 
serena lua de luz fina 
prateia tempera o alto da colina 

nestas montanhas em novembro 
evapora o tenro tempo ao relento 
(o que nunca se poderia saber?) 

nuvens itinerantes translucidam seu rosto 
e vejo você agora 
no breu frio do adeus 
no jardim de pedras 
vestida de vento e neblina



.

sábado

Flor de Cacto



é meio assim
só chega se não se sabe
só entra se não cabe

- a parte que não se faz servil
  que violenta o bom gosto
  quer encantar-te

isso desse vício
                  arte?
                  ofício?

poemas apenas
não temas


.

sexta-feira

Perfume de jamais



fim
e se assim for
um simples partir
sonhar a não se crer
no tempo
a descumprir juras de amor?

então
deixa-me ouvir
ao relento o teu tango
a vagar                                                                            
e fugirfundirferirtingir
            em lo uquec ida me nte
o sangue
o espinho
o pecado
o último pecado da flor

cair no esquecimento
vida sem motor
desflorescer no eternamento
que em teu rosto também é
também é jamais

- um lamento latente
  me faz anoitecer a cor
  me faz adormecer a dor
verrugosa flor
  um nada mais a delirar

- sim
  diga por favor
  deixa-me sentir
  sonhar-te o sol nascer
  teus olhos refletir
  o sol se por

então
deixa-me sentir
no longo tango do tempo
alento                                                                              
e fugirfundirferirtingir
em lo uquec ida me nte
o sangue
o espinho
o pecado
o único pecado da flor

e ao encontrar-te no apagar de tudo
sem mais um beijo a mais
teucoloteucalor sem o querer
o que me resta fazer?
cheirar tua rosa revoluto
que em teu corpo agora é
perfume de jamais 


quarta-feira

Pele de pétala


o sol na pele sua
aguarela no dorso
no finzinho da tarde

como flor airosa
espera que a lua
no céu se guarde
e garbosa aguarde
a noite quente
chuvosa

ah
e no banho
      charmosa
ela se veste de longo
      se despe de rosa


.

sexta-feira

Amor demonho


gazela louca
ela me rejeita
no seu jeito de levar a vida                         
             a se livrar dela
         para aquém dela

não me aceita
segue surda apressada
     comendo insultos
caçando becos alucinada
     bebendo olhares
para a lua de mais longa madrugada

a bela loba prefere os infernos onde se deita
   a me querer
       por temer 
          meu amor demonho 

.

segunda-feira

Arco-íris em Outubro

espada do meio-dia
o sol estala no céu desnudo

o calor desvia a luz em assombro
ar agudo ardendo narinas
arranhando olhos que nem lacrimejam mais

come horas derrete corpos desalenta almas

contudo
antes que a vida cinere para sempre
outubro


o escudo - a miragem
milagres em gotas
caem no fim da tarde para além das multicores
leves às soltas
belas meninas
seduzindo a paisagem