sexta-feira

Poematomas - Amor Agônico


um suspiro no jardim enluarado
por ti
- por quantos fôlegos 
  engolidos?           

não por dores que dão à palavra 
      dimensão de manso silêncio
                    mas pelas agudas

esta
     exatamente
esta dor de herpes nos nervos
que percorre víbora os versos   
e uiva agônica

- ainda te amo


  

domingo

Madame

Jeca Tatu - lobato.globo.com

vira a página e estica o orgulho em pontiagudas unhas 
desfila seus versos da altivez de uma rara casta 
fios dedos 
     sem nada tocar 

zomba arqueando repuxadas bochechas em ruge palhaçal 
sobre pele 
     pó funestos 
e joga o cabelo laqueado para além da longa e árida testa 
a dissimular a peruca 
     que desafina 

em falsia (não se vê o olhar) vesga 
envergonha ao forjar lágrimas por trás de pálpebras infladas 
     caídas 
ancoradas em queixo e nariz maximamente erguidos sobre ombros 
     arqueados 

último ato de pleno desbotamento da alma 
a boca trejeita desdém 
     mas em silêncio

- eh... poesiiiaaa, né? ói, nuum vi puressas banda daqui não madame!

  
  

sábado

Disfarce


chegou em timidade 
logo encontrou lugar 
ocupou-se de mim 

entornou tormentos 
fúria desterramento 
tremendo mundos 

refugiado em guerras de auto massacre 
dias cinzas noites vermelhas 

- bom dia na cama? 

em sua paz conscientemente renunciada 
falsa - olhar indulgente 

esta imagem pesadelar 
não quero 
seu comezinho amar desamar 
não quero 

presença desavinda 
atire 
afaste a face e seu disfarce 

- boa noite 
  para sempre 

  

Ondas de Amor



no balanço traçado das marcas
- memórias lombares

verta-te neste mar anarco que jorras
ceda-me em ondas em ecos

lança-te barca sem rotas
a guiar-me pelos marcos do amor


convindo amor

Ela


suaviza memórias melancolias 
metaforiza boca 
     palavra baton 
vazios de amor laqueados

ruiva mecha 
         ondula 
         engana 
interroga delícias intraduzíveis 
entardeceres penteados 

cheiro de creme blush 
delineia distâncias ausências 
      elegâncias 
      desdenhos falseados 

arca sobrancelhas 
        pontua rímel
        e se exclama derretida em lágrima

 

Sujeitos Ocultos

"Estudos" - Paulo Vieira

palavra mil pulsos 
     repuxo de boca 
     repulsa aguçada na língua 
ferino fio que se confiou em silêncio em segredo 

todos de mim tremem 
temem ocuparem-se das dores desejadas 
das ausências de que se poderia gostar 

     não 
   não dispõem de gostares os sujeitos ocultos na poesia 
 que só excita almas em seu reverso corpo adstringente 

ergam-se 
  imponham-se ao grave da voz 
    resignada a designar-se 
      a condenar-se a engolir o seco das palavras 

e em cada uma delas mil confissões covardias coragens
a atirarem-se ao abismo 

        poema em alta voz 
que se desmancha ao de c l a m  a   r -   s    e

sexta-feira

Poematomas - O desdém


Os últimos instantes da mais longa luz do sol sobre teu rosto
e a tarde sorri e abre prolixos braços em eloquência e espanto.
A música inusitada do vento do assovio canário de poesia.
E no triscar do toque trememos vibrando glúteos guturais
inventando ismos fônicos ao gozo de penetrantes vogais.
Riste muito até o riso ficar de graça e perder encanto.
O que passa pelos poros fica mais que versos
não esgarça metáforas para dizer te amo.
Das dores mais agudas, a verdade dos lábios.



domingo

O pecado do poeta


tira a pedra mó do bolso
     afia
          atira no desgosto
que leio vejo ouço

desdinheira desreloja a vida


e antes das palavras ulcerarem
pega estrelas que pingam dos olhos
para escrever e dedicar o lugar comum mais bonito


  

sábado

Poematomas - Espinhos



beijar-te entre mordidas
e lacerar o tempo
o mundo

deste lábios ao esquecimento
neste verbo de mentiras

- você nunca esteve aqui

arda-me delírio em tua marca
                               tua falta

que nunca acabe
a sangria comprimida
e que a dor não pague
pelo pecado da palavra
não dita
espinhada nestes versos 



Ares do passado


Eliseu Mól, no livro "Chão Interior", de 1992

ares assim me deixam velho
rugas erodidas 
     de terra 
          na cara
morros calvos, muito calvos, quase nus

imagens do campo que me cobram
- onde está você agora?

estou tão vestido
e você tão nua
     minha terra
a mais pura nudez de quem nasce ou morre
     de quem mais morre que nasce

imagens do campo que me dão saudade
- onde está você agora?

estou tão sozinho
e você também tão sozinha
     minha terra
e não conseguimos mais medir a distância que nos separa

ares assim me deixam mais velho
março/92

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