sexta-feira

Ato único


 abrem-se involuntariamente os olhos
e pronto

toda manhã
            como no desventre
descortinados na boca de cena
ouvidos em silêncio
em ausência

o constrangimento desordena
- onde por as mãos
as palavras?

tudo a saber a que veio
                         e nada

existir é este susto


.

Bilhete





voe branco da folha
o vento expresso
colha cores flores estrelas
um ramalhete de frescor
um verso
e volte bilhete para meu amor 

quinta-feira

Chuva



flor nina

formosa

na dança da chuva

flor moça

cheirosa

sexta-feira

Por um sorriso em seu rosto

Holambra, ano passado



mansa vai densa névoa
e por ela
dança o sol em franjas que servem orvalhados prismas
que colorem a rosa em suaves brisas
e brilha
perfumando o ar que entra pela fresta da janela

é... se lembro-me
ondulando os campos você exubera
e me tinha amor

é... se atenho-me
é no balanço do seu vestido floral
na trança da primavera

é... ainda setembro-me



Coisas emocionais



Página Primeira
o vazio contém uma palavra


Em Capítulos Recuperados
imagem da morte na infância
dedo de filho com um dia de vida


Parágrafos Meninos
galho do pé de goiaba que dá passagem para o telhado da cozinha
     castigo de mãe
dedo perfurado pela agulha da máquina de costura
     umbigo de pai


O Livro Adolesce
o verbo voar levita?
evita ele a falta de ar?


Mensagem do Meio para o Início
o livro pode não agradar 
ao despalavrar a verdade 
e certamente não conforta 
porque não se conforma 
à realidade 
(que realidade?) 


Pergunta que Antecede
- que difere pedra de outra
  caminho de outro?


Do Fim para o Meio
é com leveza de rio em correnteza 
( dureza de pedra 
peso de água ) 
que a poesia bate na cara 


Universos Descapitulados no quintal
longa samambaia na varanda 
mesa na sombra da parreira de uva
verduras fresquinhas e mamão para unha 
antúrios ao pé do velho coqueiro anão
lindas roseiras no canteiro 
touça de cana saco de laranja
enceradeira no piso vermelhão 


Permeância de não Esquecer
- que canário se negaria
  a cantar na gaiola
  (para a gaiola)
  poesia?


Capítulo do Amor Desendereçado
  • vinho aberto no tempo certo 
  • lua azul às quatro da madrugada 
  • banhar uma carta de lágrimas 
  • sonhar no desamor 

Separação
esta vida não se comporta
- diria sobre mim –
então abri a porta e saí
deixei-a
sem se saber já morta


Notinha
mais que espantos, emoções 
quaisquer que queira 
do silêncio ao grito
emoções que alinhavam desatinos 
 os sentidos dos sentidos 


A_Final
 – se não for para guardar no peito um abraço
           para que mais poesia serviria?


.

aDeus



não deste o remanso celeste
que ilumina a mente e a alma eleva
fugiste curvando a flexa do tempo deixando o caos
não desceste - correndo de ti mesmo – o abandono

não deixaste criança brincar jovem dançar velho encantar

o peito, um pote de ausências
poesia de amores perdidos
cartas jamais postadas

não foste prometido lugar sagrado seguro
nem cantaste louvores
não espantaste meus maus espíritos no escuro
- corpo em tumores

legaste o frio
só

aos sons da terra e do céu
calaste desde o primeiro choro de vida

pois então
a Teu modo ateu
leva este meu último suspiro de morte
é Teu


.

segunda-feira

Foi num sopro

João Garcia, escritor e jornalista
Morreu hoje o dono de uma grande alma, destas que enraizando-se e elevando-se se ilimitam.

Amou com vigor a vida e teve com ela uma relação leve.

Amou ainda mais de seu povo as suas falas, seus dramas comesinhos e atávicos, escritos e descritos em alguns segundos, mil palavras.

Fez acomodar tamanha grandeza nos sorrisos pequenos, nas perguntas que nunca pretendiam respostas, apenas conversa miúda.

Dos olhos nos olhos, por conhecer tão bem sua vocação para a bonança, nunca fugiu de tempestades, enfrentou-as trovejando, também, esperançosamente.

De perto assim e com a mesma profundidade amou aos seus, família, amigos gêmeos. Ensinou a muitos, como a mim.

Morreu como certa vez contou-me que gostaria: mais que susto, mais um sereno sopro... da vida.


.

sexta-feira

Céu da Serra


"Céu da Serra do Cipó", Guilherme Queiroz



vejo belos portais
leito anil
longas curvas
nas gerais

montes e matagais
saltos vales
serenos matinais

eu não trago ouro
nem ouro levo
largo sorriso
lago azul dos tempos
encantando olhos brilhos
que aquarelo

simples e casuais
que se deixam
ir de leve e mais ao mais

eu não trago ouro
ele não eleva
largo sorriso
lago azul dos tempos
encontrando atalhos trilhas
mel da terra

eu nem trago ouro
nem ele me leva
largo sorriso
lago azul dos tempos
doce manto sobre filhos
chão da serra

amarelo o sol vai
meio que frio
quase escuro
e a noite cai

cantos vinhos luais
sal que traz
corações ancestrais 




Para seu desgosto

Tarde de Agosto
 
trago traços dissecados na linha dos olhos
rotas destinos incertos no canto da   boca
marco sirenas partidas inaudíveis
e não escapo às chegadas nefastas


vento agosto apoeirando
o tempo da piora
que se acumula
e se demora
em trinta e um mau agouros


para ser e gostar de ser
lágrima em seu rosto



Poema publicado na
http://www.tertuliapaodequeijo.com

sábado

Amor amputado

O Barco, de Rogério Cordeiro
nossas mãos, de costas
ponte sem cabeceiras
de sempre ir de nunca ir
de tanto nos abandonar
 
nossas mãos, de longe
olhos - secar de pedras cachoeiras
sonho sem margens
sem corredeiras
 
teu rosto lentamente dobra o tempo no horizonte
manso barco na paisagem
pronde?
 
amor amputado
fonte a fio seco
rio a mar morto
espelho a miragem  

.