sexta-feira
de relance
( na tarde daquele memorável samba - "Meu Romance", gravado por Orlando Silva)
tirei o colarinho
como na malandragem do samba de trinta
debaixo da jaqueira majestosa
quando os olhares cruzaram com carinho
e tu te me mostras-te tão gostosa
vestindo sandália
um leve tubinho
de malha
rosa
quarta-feira
rechaça
depois da queimada
depois do dilúvio
onde Becte?
não responde
perde-se na cachaça
na madrugada
não quer que a detecte
em repúdio
não se encontra no corpo
no cavado das pernas
não quer o nexo que a esgarça
prefere o vesúvio
a acolher tua farsa
sexta-feira
Madame Satã
o indivisível tempo
encara o punhal
Becte sente saudade e diz nos olhos
fazendo de mim âncora gutural
a lembrança é presente
o desejo é futuro
- o ontem pode ser ainda?
agora freme no gozo peristáltico
com ressonância intestinal
(não se tem prazer na lira do passado
que só não há porque se fez presente
quando
cuja vocação
era ser efêmero orfeu)
nos lábios
o amor presentifica o primeiro beijo
no afiado metal
o sangue é só o meuquinta-feira
adormece, mas não esquece
Becte retira lentamente a maquiagem
não se
sente morta
nos desapegos
e nos enovelos
todos os dias
dorme com a
incerteza
acorda com a
indefinição
e entre
sonhos e pesadelos
a única dor que não suporta
a única dor que não suporta
é a da traição
sexta-feira
Mona Becte
por mais que
a bela Becte nua
em sua insipidez
risonha
nos mostre
apreço pelas tardes coradas de setembro
furta-cor do
autor do dia
nem pintura
nem escultura
muito menos
fotografia
mesmo o vídeo
descarnando pernas adentro
nenhum olhar
que nela se ponha
jamais
perceberá
que ela morre de vergonha
.
póstumo
já não fui o belo
que afobadamente tenta embeber esta disritmia
resta o incidental sêmen nas pernas
no rabo do cometa
na cama desarrumadamente vazia
já não fui a arte
que não se contempla com os olhos
senão as aberrações na borra do café
a corrosiva cadeverina nos talheres sujos sobre a pia
já não fui a vida
que agora se faz ida
desta superveniente poesia
sábado
Luado amor
o uivar nos
rangeres de cama enfeitiça
nos
desarrumares de lençóis se apodera
a deixar-me
náufrago vazio de mar
- a lua em seu
corpo espreguiça
desde a primeira primavera
e nunca mais saiu do meu olhar
a janela
abre e anima as cortinas - o bico eriça
tranças ao
espelho e fronhas de linho
a luz em
velatura filamenta a taça vinho
os ventos
alísios não vieram
perderam-se
no deserto oceânico, como eu
o céu se faz
moldura para a lua do perigeu
e a mais
intensa e bela luz da noite viça
mas hoje ela,
como você, cumpre outra sina
mergulha na
umbra da terra
fecha a
própria janela
enrubresce
submissa
e no horizonte
invisível de delírio e errância
sem perder a
elegância
nosso amor eclipsa
.
terça-feira
Córrego Timotinho
![]() |
| Córrego Timotinho, Timóteo/MG |
insistentemente
chove
vou-me por
canaletas bueiros manilhas
a me dar no
ribeirão preto
sou estas
águas mal cheirosas
como as do
córrego do gregório
loucas por
transbordar o lixo a que as submeto
agora intensamente
viro
tempestade de horrores
com peso de
destruir jardins
e
carregá-los macerados ao córrego das flores
por toda
parte entro pelas frestas pelas goteiras miúdas
entupo a pia
alago o chão
como
insurgente ribeirão arrudas
que não
esconde
quando e
onde
seguidamente
afoguei-me nas
enchentes do lavapés
sonhando ser
o subaé em sua nascente
quem imaginaria
que a vinha assim fosse
contra a correnteza
do caratinga
fugindo das
margens do rio doce
subindo torrentemente
o piracicaba?
vou
dissolvido de volta pra casa
levando cada
uma das águas que encontrei no caminho
que nunca
deixaram de ser
as do
córrego timotinho
sexta-feira
Hóspede
quero
aprofundar o desconforto
de
desdizer todas as certezas
com os mesmos olhos
de frio estanho
de vida
curtíssima
sou
passageiro deste corpo
que tem
o hábito estranho
de ser eterno
morador do quarto de hóspedes
.
Assinar:
Postagens (Atom)









