terça-feira

Córrego Timotinho




Córrego Timotinho, Timóteo/MG



insistentemente chove
vou-me por canaletas bueiros manilhas
a me dar no ribeirão preto
sou estas águas mal cheirosas
como as do córrego do gregório
loucas por transbordar o lixo a que as submeto

agora intensamente
viro tempestade de horrores
com peso de destruir jardins
e carregá-los macerados ao córrego das flores

por toda parte entro pelas frestas pelas goteiras miúdas
entupo a pia alago o chão
como insurgente ribeirão arrudas
que não esconde
quando e onde
seguidamente
afoguei-me nas enchentes do lavapés
sonhando ser o subaé em sua nascente

quem imaginaria que a vinha assim fosse
contra a correnteza do caratinga
fugindo das margens do rio doce
subindo torrentemente o piracicaba?

vou dissolvido de volta pra casa
levando cada uma das águas que encontrei no caminho
que nunca deixaram de ser
as do córrego timotinho


sexta-feira

Hóspede






quero aprofundar o desconforto
de desdizer todas as certezas
com  os mesmos olhos
de frio estanho

de vida curtíssima
sou passageiro deste corpo
que tem o hábito estranho
de ser eterno morador do quarto de hóspedes

  
   .

quinta-feira

três poemas para Cidade (Re)Velada

inspirados nas fotografias da exposição de Wanderson Alves






janela - de dentro e de fora
passarela chuvosa
a borboleta, a rosa

a saudade (re)velada
condensa a cidade

- cena de filme rodado na surdez da madrugada





a cidade cintila, chora e abandona
baila sombra – olhar que não mais sonha

a cena retém e transborda
o desdém
de quem já não se comporta


pedra pedra





a poesia do vazio reverbera
no quarto, na cidade
e a dor cumpre sua parte

o momento é exato
    (antes que o tempo tudo aborte
     até mesmo a morte)
a exclamar-te

saudade

é tua arte



    

sábado

Esquina em chamas

(Jerônimo Gonçalves com Francisco Junqueira)






antes do fogo
antes do aluvião
de tudo desaparecer na boca-de-lobo
imagina como era linda
a confluência das águas plácidas
do córrego com o ribeirão?

hoje tua brisa assa
tua terra tosta
e o concreto perpetua teus vapores infernais

- era verde de várzea a cratera do vulcão?

a andorinha esfumaça 
quando a tarde finda
e ardemos em longas noites nudas e sudorais

- serenava sombra nesta esquina?

não mais 
agora tudo calcina 
como palavra flácida 
num poema ácido  



Imagem/Google Maps: Esquina das Avenidas Jerônimo Gonçalves e Francisco Junqueira, onde ocorre o encontro das águas do Córrego Retiro Saudoso  e do Ribeirão Preto, hoje canalizados.

   




terça-feira

A tarde em seu rosto



Para Bell San

a luz do sol descansa  
e aspira um ponto sereno
- extrato de si mesma

esta luz quase cega apraz
dança e desinflama
quiçá banhada ao quase sangue do grená
ou na clareza dura da hóstia
um ponto meio treva nos cabelos
ou nos olhos meio chama 
sonha ser o halo da irisação que no seu sorriso se refaz 



   

domingo

Apenada missão




fazer-se de detritos
do sentido exato
alinhavar o desconexo
sem aparar as pontas
                       das palavras
decompor-se 
compacto

aos gritos 
expor-se glande à unha de gato

   
   

quinta-feira

Na videira



sou sobrevôo
cachoeira a silente remanso
          para ver-te refrescante
hortelã e maçã verde
fragrância sensual

passeias por videiras
e poesias dobram montanhas
             assanhas vestes pelos
vertes descanso
  
rimo teu nome
             que é presente vidente
verso vivente
corpo consoante em alma vogal

sou o que sôo
brisa a torrente vendaval
        para ver-te lancinante
azedo a amargo a picante

vertigem verbal

  

segunda-feira

No canto do olhar




a vida quer entrar
e tu te recuas reto a alma ao breu
contrais em ato contínuo

lágrima em concreção

carne branca quase nua
esfregas tuas rugas  
tuas pregas
à exaustão

condenação a resto

face sem direito a rosto
um rio de águas repetidas no olhar


quinta-feira

Fornalha




a mata fumega
estala osso
o corpo curto-circuita
na pele o ar pesa grosso
secura de sangrar ventas

- respirar é esforço

  

segunda-feira

Exumação



então é isso
narra  sem amarras
vive menino
onde o coração é mais doce

como lenda
defenda chuva de estrelas ocasos
sonha  ao vinho
às garrafas
beija o asfalto em sangue
na cena de amor declarado de joelhos ralados

ele sorri
disseca
e cata os pedaços
- ossos hálitos dramáticos crina de cavalo lomba esperma -
e vai no horizonte
de único traço

este menino que sempre habita
condena e liberta
só ele precipita da ponte
e maldiz o perdão enquanto você peca