sábado

Esquina em chamas

(Jerônimo Gonçalves com Francisco Junqueira)






antes do fogo
antes do aluvião
de tudo desaparecer na boca-de-lobo
imagina como era linda
a confluência das águas plácidas
do córrego com o ribeirão?

hoje tua brisa assa
tua terra tosta
e o concreto perpetua teus vapores infernais

- era verde de várzea a cratera do vulcão?

a andorinha esfumaça 
quando a tarde finda
e ardemos em longas noites nudas e sudorais

- serenava sombra nesta esquina?

não mais 
agora tudo calcina 
como palavra flácida 
num poema ácido  



Imagem/Google Maps: Esquina das Avenidas Jerônimo Gonçalves e Francisco Junqueira, onde ocorre o encontro das águas do Córrego Retiro Saudoso  e do Ribeirão Preto, hoje canalizados.

   




terça-feira

A tarde em seu rosto



Para Bell San

a luz do sol descansa  
e aspira um ponto sereno
- extrato de si mesma

esta luz quase cega apraz
dança e desinflama
quiçá banhada ao quase sangue do grená
ou na clareza dura da hóstia
um ponto meio treva nos cabelos
ou nos olhos meio chama 
sonha ser o halo da irisação que no seu sorriso se refaz 



   

domingo

Apenada missão




fazer-se de detritos
do sentido exato
alinhavar o desconexo
sem aparar as pontas
                       das palavras
decompor-se 
compacto

aos gritos 
expor-se glande à unha de gato

   
   

quinta-feira

Na videira



sou sobrevôo
cachoeira a silente remanso
          para ver-te refrescante
hortelã e maçã verde
fragrância sensual

passeias por videiras
e poesias dobram montanhas
             assanhas vestes pelos
vertes descanso
  
rimo teu nome
             que é presente vidente
verso vivente
corpo consoante em alma vogal

sou o que sôo
brisa a torrente vendaval
        para ver-te lancinante
azedo a amargo a picante

vertigem verbal

  

segunda-feira

No canto do olhar




a vida quer entrar
e tu te recuas reto a alma ao breu
contrais em ato contínuo

lágrima em concreção

carne branca quase nua
esfregas tuas rugas  
tuas pregas
à exaustão

condenação a resto

face sem direito a rosto
um rio de águas repetidas no olhar


quinta-feira

Fornalha




a mata fumega
estala osso
o corpo curto-circuita
na pele o ar pesa grosso
secura de sangrar ventas

- respirar é esforço

  

segunda-feira

Exumação



então é isso
narra  sem amarras
vive menino
onde o coração é mais doce

como lenda
defenda chuva de estrelas ocasos
sonha  ao vinho
às garrafas
beija o asfalto em sangue
na cena de amor declarado de joelhos ralados

ele sorri
disseca
e cata os pedaços
- ossos hálitos dramáticos crina de cavalo lomba esperma -
e vai no horizonte
de único traço

este menino que sempre habita
condena e liberta
só ele precipita da ponte
e maldiz o perdão enquanto você peca


domingo

Sua super lua



amar noutro mundo
tão impossível quanto amar sem desamor
banhar-se no fétido Rio Doce
e deixar-se cobrir de luz sem margens
amar fora de si
no lado escuro da Lua

que hoje é só luz

  

sábado

Marinhagem



fales aos marujos surdos e sujos 
deste corpo 
imbarcável 
desta alma 
iniçável 
dos invisíveis marejados olhares
desta dor que só há em ti 

mas 
como quem escreve no que se espera de imprevisível 
da areia da praia
suspires profundamente e não respondas 

caias aos pés dos mares 
na brisa de gaia 
cascatas de arrepio 
e vás com as ondas 


   

domingo

Amor de anjo



cabelo em desalinho
langoroso sorriso
pele macia e quente

vejo adormecer meu anjo
em sereno suspiro

- sei que partirás
  e sinto a dor de tatuar-me do perfume de teu sexo

fúria de dragão na calda
viço de donzela ao dente

é vinho complexo
de longuíssima guarda 
na alma
porque quando um amor entra na vida da gente
não sai assim 
tão facilmente