quinta-feira

Amor avinagrado


há uma música surda no encanto do olhar
e a plumagem ilude em policromia

sim, pura beleza

mas é de corpos mutilados
de amores odiados
que chegam canções de sereia
- assassina poesia

em vinho avinagrado  
a fétida palavra vocifera
torpor

no feitiço das garras da fera 
não há amor

  

sábado

Tarde


não vieste 
  na tarde viraste paisagem 
  e o céu já cora 
  a lágrima que enviaste 

na lente rosé da taça de vinho 
   que o sol 
       também sozinho 
             logo se guarde 
                 a esperar amanhã 

  se é amor 
  não encarde 


domingo

Teus lábios

brilho do olhar
concentrado de vida

tuas beiras liberam aromas
amoras amores anoiteceres

preso em tua redoma
pernas vigorosas
teus vermelhos viscosos teus rosas
carnudos sutis intensos

doce nas pontas
picante nas laterais
no âmago ardente
teus cantos na língua

vinho sangue quente
opulência untuosa ao dente
que me faz teu vampiro
teu escravo
toda vez que demoras na boca comigo

  

segunda-feira

Fagulha

há de atear fogo
hastear labaredas na ponta dos dedos
jogar-se corpo solto
lambendo íntimos segredos

longa envergadura de drago
em jorro combusto
      beijo de único trago
                    última faísca

e num licoroso olhar
- página que sonha ser escrita com brandura
ler na pele minhas fagulhas


você me risca


  

quarta-feira

Desverso

Paulo Vieira - detalhe de uma pintura em acrílico s/ tela.
   
   gesto brega pequeno
este verbo em disfarce
                      é veneno
rebusca
mesmo o que não quer achar-se

- há coisa mais sem valor
                 que um poema
                         de amor?

  desconcertantemente
       desversa a poesia
  infiltra e se dissemina

e numa brusca rima
  desbota o sistema
                   repatria

                 o ditador

   

sábado

Na borda da taça

Nefando C - Fotografia de Wanderson Alves

viajo a desgarrar-me do tempo
                                   às cegas
nas corredeiras de um vale paradisíaco          
imerso nos mistérios de uma taça de pinot noir
                                                     a desdenhar
                                                             o futuro
deixo o que dos poros esvazio
(clausuro corpo dionisíaco)

e assim              
           quase sem ar
diante da inutilidade das palavras em ênfase
                                                           exalo-me
vou-me embora
entregar-me ao vento
num mortífero êxtase
                   satiríaco
 
afora       
     em ti
sem âncora
        sem cais
findo

    na borda da taça
teu beijo mais lindo
                estilhaça


- não te choro mais

  

domingo

Sonho de Champagne


deitaste o corpo delgado
em teus tons de rosa ao espectro solar
e brilhaste pele alva
a prender-me irremediavelmente o olhar

tu me acostumaste à arte felina
intensas cores e odores de caça
                                        de cio
aos aromas fluídos de laranja lima

quem me dera agora ter-te
pantera entre gardênias
a sonhar borbulhas de champagne

numa taça de vinho verde

  

segunda-feira

Ranhuras


em meu colo o mundo adolesce
e ganha garras
   eros feroz felino
e apetece afrodite
   beijo de incisivos e cravadas

ah
coisa assim a gente não esquece
(a pele que expunha
         delicadamente
      a ponta da unha)

leio teu convite
e em casa
      sozinho
      sussurro
      sim

suo na noite que enlouquece
neste tesão que carcome
e numa prece de amor
    urro
    teu nome


domingo

Leva-me


agora parto
    desatar-me
          desamar-te?

pés mãos
        pele de terra esturricada
este tempo não comparto
        contigo
                 antigo amor

no quarto
recheado de poesia verrugosa
lençol frio
         teu vazio reverbero

no momento exato
    antes que o tempo tudo aborte
    até mesmo a morte
meu corpo amortecido
       cai
e entrega tua parte

saudade

é tua arte

  

quinta-feira

Imarginar Minas

esta minas
que
       de ti
             ainda infinda persiste
- onde o mar não bete

que
      de mim
            ainda descrevo triste
 - sem que a dor a retrate

por ti
por ter-te
       oceânea estamina
meu centro
adentro


que aos montes escrevo 
em onda de sonho que mais tarde amanhece 
e na crueza de rocha dos dias que morrem mais cedo

ah!

se margens houvesse