sábado
POÉTICA
Buscar a palavra é sentir-se perto
Do estranhamento de viver
Como resíduos de pedra no olho
... Gosto de sal habitando alma e ventre
Encontrar a palavra é ressurgir
Dos vales onde o sol não chega
É tornar-se novo e atemporal
Rodeado de ser aprendi
Juarez Gomes de Sá
domingo
Minas, 1988
ares assim me deixam velho
rugas erodidas na terra na cara
morros calvos, muito calvos, quase nus
imagens do campo que me cobram
- onde está você agora?
estou tão vestido, minha terra!
na mais pura nudez de quem nasce ou morre
de quem mais morre do que nasce
imagens do campo que me dão saudade
- onde está você agora?
estou tão sozinho
você também tão sozinha, minha terra!
e nem conseguimos mais medir
a distância que nos separa
ares assim me deixam mais velho
Sonho leve e bom
um som leve e bom
adoça o ar
um sonho leve e bom
de te encontrar
vai canção e traga ela pra mim
diga que o amor está aqui
sempre maior
ressoando melhor
segunda-feira
terça-feira
segunda-feira
Vulcão na boca
círculo de fogo
crosta em pelo
em pele concreta
eriça colossal vulcão de força magna
tesos bicos fumegantes
suores em fervilhante jorro
correntes de lava na veia na boca na uretra
só de lembrar
saliva sabor gozo
plumas de magma
sábado
Esquina do fim
Paulo Vieira - figuras sentadas 003 (detalhe)
que se esvai abandonando-se
dedos frouxos na tramela
trêmula retina
janela sem marquise
(o que pode herdar esta noite dos dias de sobra que não se viram guardar?)
e nas correntes do vento empurradas pela tempestade
desencadear-nos-emos em milagres miragens
e recatadamente
reinarás - templo portal do tempo
estranhado nos olhos
dedos frouxos na tramela
trêmula retina
janela sem marquise
(o que pode herdar esta noite dos dias de sobra que não se viram guardar?)
e nas correntes do vento empurradas pela tempestade
desencadear-nos-emos em milagres miragens
e recatadamente
reinarás - templo portal do tempo
estranhado nos olhos
Noite de sol
bela e quente
seu sangue samba insinuância
bebe becos come cortiços
elegantemente
a cachaça na tumidez da pele negra
lustra a taça dos seios já ouriços
o suor escorre e esguelha a cintura nas mãos
torneia e voluma monteadas coxas
no ranço da sinuosa dança
vibra a virilha às vísceras
alheios em meio à carniça
ao bramido do temporal
tremem nossos corpos e almas
no raio no gozo em lança maciça
febril
fevereiro ferve
noite de sol em seus lábios
bebe becos come cortiços
elegantemente
a cachaça na tumidez da pele negra
lustra a taça dos seios já ouriços
o suor escorre e esguelha a cintura nas mãos
torneia e voluma monteadas coxas
no ranço da sinuosa dança
vibra a virilha às vísceras
alheios em meio à carniça
ao bramido do temporal
tremem nossos corpos e almas
no raio no gozo em lança maciça
febril
fevereiro ferve
noite de sol em seus lábios
Manhã de Janeiro
frescor campeiro
brisa leve pelos poros
primeiro arrepio de pele do seu bem-avindo amor
você avoluma nuvens ao seu relevo
inspira o sol joalheiro de orvalhos
você
flor serenada em manhã de Janeiro
abranda os olhos
liberta o coração
e volta ao vento
segunda-feira
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