segunda-feira

Ranhuras


em meu colo o mundo adolesce
e ganha garras
   eros feroz felino
e apetece afrodite
   beijo de incisivos e cravadas

ah
coisa assim a gente não esquece
(a pele que expunha
         delicadamente
      a ponta da unha)

leio teu convite
e em casa
      sozinho
      sussurro
      sim

suo na noite que enlouquece
neste tesão que carcome
e numa prece de amor
    urro
    teu nome


domingo

Leva-me


agora parto
    desatar-me
          desamar-te?

pés mãos
        pele de terra esturricada
este tempo não comparto
        contigo
                 antigo amor

no quarto
recheado de poesia verrugosa
lençol frio
         teu vazio reverbero

no momento exato
    antes que o tempo tudo aborte
    até mesmo a morte
meu corpo amortecido
       cai
e entrega tua parte

saudade

é tua arte

  

quinta-feira

Imarginar Minas

esta minas
que
       de ti
             ainda infinda persiste
- onde o mar não bete

que
      de mim
            ainda descrevo triste
 - sem que a dor a retrate

por ti
por ter-te
       oceânea estamina
meu centro
adentro


que aos montes escrevo 
em onda de sonho que mais tarde amanhece 
e na crueza de rocha dos dias que morrem mais cedo

ah!

se margens houvesse

  

segunda-feira

Poematomas - Peso de água

Cachoeira Grande, Serra do Cipó

o verbo voar levita?
evita ele a falta de ar?

o verso não agradara
      recorte involuntário de estranha crueldade
      beleza que certamente não conforta
porque não se conforma
- a poesia em sua materialidade

enchente iminente recitara
arrebatadora natureza de tempestade

mas é com leveza de rio
dureza de pedra
peso de água
que a palavra batera-lhe na cara

  

domingo

Labirinto

Labirinto, Ma Ferreira
Assombra assim
       complexa e bela
Assona teu aroma
     abstrato jardim
     absinto

Quanto mais conheço o rumo
mais perco o prumo 
entre veredas do que sinto.

De ouvido a olvido
me encontro em labirinto.

Adri Aleixo

Marcos Pizano

  

Hospedeiro errante

alojam-se corações viajantes
que adubam almas com vírus fungos bactérias
                                          tatuagem carne viva

estalagem a céu de buracos negros
carregado de cada um de nossos vazios

(também sou passageiro 
                           tangente
de pouquíssimas paradas
                    leve instância)

de não se pedir guarida 
                     indulgência
  a quem é de sempre ir           
- para quem só há substância na partida

da ausência
     curta distância
sonhos indigentes
na bagagem
gentes e seus cacos
- colados aos meus

hospeda-se e ejeta-se

(sempre um estranho
                 a distar-se)

  

sábado

Perdão da liberdade

Paulo Vieira, Inédito Um 013
perdão do ódio que nega-se amor
da lágrima pelo choro frágil
                                   absurdo

perdão da vida
             por achar que era sua
do tempo
             a não se remir

o perdão da ausência
               que suplicam sol e lua

que mesmo podendo ser fácil não se faz pedir
o perdão dito surdo
                - disse que deu?

o perdão que não pude dar
               porque não era meu


O arremate do Giz de Alfaiate

Para Seu Tonim, na provocação de Roberto Lima
o som preciso da afiada tesoura
     desejo de cós sem presilhas
     pele sem vincos pregas
sem dedais para alinhavar na bainha dos olhos
o que a lua prateia e o sol doura

a palavra corte - mesmo que cerzidamente escrita - nunca cicatriza

ainda há de ser a unha comprida e dura
marcar no tecido do tempo
suave giz a desenhar por onde a vida fere
     a suja mão italiana rouba
     a luxúria vaticana agoura

não há liberdade na mascara no molde
                   e por mais que isso revolte
                                                        sim

                       hoje o sonho está preso

   

quarta-feira

Tão triste


olha-me
ainda dobro as asas que me levam a ti
e melancólico eu vou até que me rende
de tão triste tristonho morrer

qual sonhei
donde trazes violinos eu voei
mais que do céu relampeou
mil vezes cair 
e não me viste 
nos olhos 
mentir

te pertenci
desde que me encantou
com seu jazz nosso jazz com jeito de blues

donde não parecia a nenhum de nós
que tudo acabaria em vão

nem mais um
nem mais a nossa bossa nova ouvir ao longe
dois pra lá dois pra cá de bem mais perto
teu rosto de novo

me feriste
de morte
amor

te pertenci
desde que me entoou
com esta voz e ao redor tudo mudo

donde não parecia a nenhum de nós
que tudo acabaria em vão

nem mais um
nem mais a nossa bossa nova ouvir de longe
e tremer nas pernas um tango leve
um samba canção

me feriste 
de morte
amor

e 
de 
tão triste
vou morrer
de 
amor

  



 

domingo

Poema na cama


semblante moleque
dorme e se desfaz e faz
  ausente acuado
  que o mundo sossegue

deita sob pálpebras
retalho de vida sobre a cama inerte

pousa peito liberto
meigo recatado
vinho recém aberto

aceita e esquece
que para a saudade todo amor sempre se perde

dorme criança linda
que mansa assim
          a mim entregue 
parece
          e por isso me faz 
mais feliz ainda