sexta-feira

inferno que voa


Parece pôr do sol,
















só que não.

imita o belo tombar do sol
mas é poeira inane
a mesma em que engelho

o nome escorre água
mas não vinha vida
nem ilumina primavera

é ribeirão preto
margeado de vermelho
chão de interno degredo sertanejo

no inverno do inverno
o vento abrasa a mais intensa aridez
todo o inferno em um único greto


terça-feira

te esperanço



de uma vida no inferno
estrela do mar clareias
num róseo lamento
persevero

no redemunho que olhos desareia
sombra de árvore na lua cheia
ao vento
me lanço

agora aqui estou neste inverno
fixo e trespassado no tempo
não te espero

te esperanço

domingo

orcrim





no suor frio e ferruginoso
- o sangue das sombras -
prova do veneno que destilou

tiranete com chifres
em decúbito ventral
apunhalado pelo golpe que tramou

o sumo cão
- tolo da noite -
anjo caído na própria traição 



.

segunda-feira

Sarau Ponto e Virgula

"Ter em Ribeirão Preto uma revista como a “Ponto & Vírgula” chegando à trigésima edição é um privilégio e um sinal de esperança. Privilégio porque é raro encontrar pessoas como a Irene Coimbra, que dedica sua vida às letras e assim nos alimenta a alma. Assim como também é raro beber de um sonho que sacode a realidade por tanto tempo. E é exatamente por isso que a “Ponto & Vírgula” é um sinal de esperança, uma prova de que – a despeito de toda corrente contrária – viver o sonho é a mais pura realidade." 

Texto meu publicado na Revista "Ponto e Vírgula".


sexta-feira

primeiro beijo

de relance

( na tarde daquele memorável samba - "Meu Romance", gravado por Orlando Silva)


tirei o colarinho

como na malandragem do samba de trinta

debaixo da jaqueira majestosa

quando os olhares cruzaram com carinho

e tu te me mostras-te tão gostosa

vestindo sandália

um leve tubinho

de malha


rosa



quarta-feira

rechaça





depois da queimada
depois do dilúvio
onde Becte?

não responde
perde-se na cachaça
na madrugada
não quer que a detecte

em repúdio
não se encontra no corpo
no cavado das pernas
não quer o nexo que a esgarça

prefere o vesúvio
a acolher tua farsa


sexta-feira

Madame Satã





o indivisível tempo 
encara o punhal 

Becte sente saudade e diz nos olhos 
fazendo de mim âncora gutural 

a lembrança é presente 
o desejo é futuro 
- o ontem pode ser ainda? 

agora freme no gozo peristáltico 
com ressonância intestinal 

(não se tem prazer na lira do passado 
que só não há porque se fez presente 
quando 
cuja vocação 
era ser efêmero orfeu)

nos lábios
o amor presentifica o primeiro beijo 

no afiado metal
o sangue é só o meu