segunda-feira

Se for



                               codinome Romeu

se o amor do meu amor se for
o quanto o quarto esfriar ausência ao redor
sozinho
      e só
      escreverei

se o corpo enfermar
suspirarei dores em belos versos
no devaneio de alguém anotar

e se a cabeça em agonia
          se esquecer
          martírio afora
          em irremediável delírio
estarei afinal plenamente em poesia
porque dela
          nunca
          nunca irei embora

   

sexta-feira

Romântico Amor

Amor Perfeito


há de ser forte 
lagrimar as folhas outonais
na solidão dos galhos

há de ser resistente a cortantes geadas
hibernar para não morrer

e na luz da primavera
há de quebrar a dormência
e rebrotar

para no colo quente do sol
madurar-se terno e doce amor

sábado

Quintal de casa


colo de mãe


onde deixei minas
         aos montes de ferro e enxofre
         que aprisionam corpos retinas
         e elevam almas súplicas ruínas

onde guardei brevidades
         que perfumam feijão quase queimado
         aguam casquinha de angu com açúcar 
         o rapar da raspa de arroz alhos e sais

onde plantei saudades
         na mesa sob a bela parreira de uva e docilidades
         no reinar na goiabeira de galhos nunca mais 
         no tempo que vende vento por tempestades

   

sexta-feira

Poemas de Fernando Campos


Sala de Exibição do Estúdio
Kaiser de Cinema
em Ribeirão Preto
O poema e o filme

As baleias nadam todos os dias da semana.
Os gatos ainda estão pingados em cima do telhado.
Quando olho pra você -- será arte? --,
vejo tinta numa tela de cinema.
Seu rosto tem luz própria, peculiar espelho.
Se notarmos bem, há mais revelações numa gota de orvalho do que ousou nossa vã melancolia. 
As faixas do asfalto o dividem ao meio, projeções e caminhos.
Desarticular o arco exerce menos tensão sobre a flecha e pacifica a superfície do alvo.
Fatos memoráveis ficam apenas na memória.
Atenas não se fez num só dia.
Pense bem e veja fundo na alma do poema




Entrada da Sala
O poema e o filme II


Eram horas vespertinas
e o silêncio ainda persistia na alma do poema.
O projecionista, assaltado pela inquietude da cidade grande, ia e vinha com a bobina entre as mãos,
sem saber se o público compareceria
para a próxima sessão.
O mar, bem perto, continuava a refletir seus azuis
e as baleias musicais, como num enorme aquário,
tentavam a todo custo falar a língua dos humanos.
Os gatos, nos telhados, se transmutavam em gotículas de tinta
oferecendo sua pele de mudez e pergaminho
aos carnavalescos e ritmistas dos novos tempos.
A luz espelhada, indeferida por uma voz convencional,
sentia-se frustrada por frases, gruas e arpões, 
tentando libertar a língua
e mantê-la fora do poder instaurado
por portentosas bolhas intelectuais.
Eram ainda as horas vespertinas
e o silêncio insistia na alma do poema
 até que alguém pudesse falar ou gritar, 
até que o projecionista pudesse ousar qualquer gesto mais amplo,
qualquer reação,
até que uma voz feliniana, quem sabe,
viesse de outras eras, em forma de memória,
socorrer o poema
e descortinar o grande filme, como outrora.
Talvez assim se pudesse redimir Atenas
(a cidade sitiada) e reconstruí-la em outros moldes
para que possamos, enfim
vislumbrar, na alma, a face do poema.

  

segunda-feira

Rosa de Videira

Bento Gonçalves, RS

é dor devotada em desatino
dar-se de raiz à linha de frente
     soprar pétala para suavizar o vento sudoeste
     adoçar os sais para que a terra não se zangue

sacrífico e frágil destino
de entregar-se à peste
em prece ao senhor do sangue

na linda vinha
(mais bela ainda)
rosa é reverso de uva
e por isso é uva
é delírio
corte oblíquo de espinho

e não percebe-se:
na taça
bebe-se também a lágrima da uva pela generosa rosa
unidas na mesma dor
de adensar vinho

* As frágeis roseiras são plantadas perto das videiras, como bois de piranha. 
Quando as pragas atacam, elas adoecem primeiro, 
dando tempo para os viticultores salvarem as vinhas. 

sábado

Noite serenada




teu dia espreguiça
na lenta sombra do monte
e volta para ele mais cedo

êta minas danada
o que faz teu gosto mesmo
é a noite serenada

quarta-feira

Elegância


ateia fogo a jovem pele morena

ergue fogueira
risca céu e inferno

na ponta da língua sobre ameixados lábios
labareda inquieta de primeira fagulha

mas não trisca
chama e abandona
abafa esfumaça afoga
e vai embora
elegantemente



sexta-feira

Epifania

Imagem - Nasa
recito os versos que universas 
e sinto apenar-me neste teu ego intestino 
     buraco negro cosmo oco 
            desconexo sem eco 

desintegra-me esta tua palavra 
a visão que se me destina 
é flagelo diante de teu raio sideral 

tu 
     cujo tempo eterna agora 
     cujo lugar sou eu 
     onde todo verbo cabe e transborda 
     que tudo há 
     e
me exclui 

de teu sonho celeste me despejas 
com o frio desbeijo da vida
     que só vai   v a i      v   a    i 


   

quarta-feira

O rosto dela

"O rosto dela" - Paulo Vieira

parece gostar do toque leve dos dedos no peito
e a despeito do bom da palavra dita
o que fica é este olhar incógnito
          escombros
               corpo inóspito
que curva penumbros ombros

(fissura em conta-gotas
dor que não se esgota)

este prazer agiota
êxtase que escorcha
sob lenta tortura


  

domingo

Soberba solidão

Canela-de-Ema da Serra do Cipó (internet)




flor de brisa sobre pedra
selvagem beleza que ponteia o campo

solitária e marcante presença sua

(por que nos deram mundos opostos?)

gigantemente ela fica de pé
sonhando com terras lavradias
soprando versos pela vida
               que não a orbita

palavras tantas
             todas onde deveria estar você

e em desdenho e soberba
a serra blasfema sua imensidão
contra a flor lágrima